Um dia desses, uma moça me abordou nos corredores da Universidade e, curiosa, contou-me algumas mazelas que a atormentaram durante um período de sua vida. Ato contínuo, se pôs a falar dos benefícios que havia colhido de uma psicoterapia a que tinha se submetido, em tom realmente elogioso. Por mais ou menos quinze minutos, fiquei a escutá-la até que subitamente, ela produz a seguinte questão: Para que serve uma psicanálise?
Pergunta legítima. Tanto mais que sua experiência lhe havia deixado o gosto das rápidas resoluções que alguns campos psi levam adiante e, sabendo dos anos que envolvem um tratamento psicanalítico, restava-lhe essa dúvida que apontava a um desperdício tanto temporal quanto financeiro. Acompanhemos seu raciocínio: se é verdade que algumas sessões tem o poder de dirimir um grande número de sintomas – leia-se, padecimentos dos mais variados tipos – porque alguém escolheria deitar-se num divã por anos a fio?
Bem, respondi a ela, porque uma psicanálise não propicia apenas que alguém se desfaça e entenda as razões de seu(s) sintoma(s), mas produz um além. Esse além é o que chamamos de permitir que um sujeito não ceda de seu desejo. |
| Eis aí um romance que carrega o estigma da impenetrabilidade. A experiência mais comum é nem sequer abrí-lo mas, quando um espírito mais corajoso se aventura em suas páginas, não costuma percorrer muitas linhas abandonando-as rapidamente – não sem dor no coração e muitas vezes com a desagradável sensação do fracasso. A princípio, Ulisses não é um livro verdadeiramente fácil e aquele que escolhe se debruçar sobre seus parágrafos – quando os há – não poderá se furtar a um nível de exigência e afinco pessoal que o próprio texto impõe. Não se lê tal livro como um romance qualquer, não é possível, e uma das razões desse efeito é o que chamaremos aqui, discurso metonímico. |